24.7.16

Chove querosene

A gente vive, mora e morre nessa cidade. A beleza dela só se revela para alguns. Demanda reparo, não é óbvia. Exige de você um cuidado e carinho que muitas vezes não é recíproco. É lugar que se devora e se cospe, uma engrenagem sem lubrificação que nunca para de rodar.

O avião passa engolindo o silêncio e regando querosene nas plantas secas. A janela emoldura um céu ensanduichado de cinza, rosa quase roxo e que só vira azul de verdade nas estratosferas. A claustrofobia asfixiante de um teto infinito.

Você dorme roncando baixinho. Levanto o copo com veneno translúcido cor de sangue e te admiro através de pequenas ondas alcoólicas. Nada é reto no teu corpo. Teu pensamento faz curva. Teu olhar abraça esmagando.

Duas criaturas encharcadas de fantasias derretidas. A cama é palco sem plateia, uma peça nunca ensaiada e sempre reprisada. A gente adivinha o gozo do outro, jogo mental que escorrega pros sexos. Mãos dadas, tesões entrelaçados feito dedos.

Na contramão do bom senso, carros atropelam a tranquilidade do lusco-fusco. Teu sono fica sobressaltado. Dorme sossegada, que a gente ainda tem a noite toda pra se jantar. Eu queria viver dentro de você. Sonho acordado enquanto visto a cueca.

O vidro na parede é quase uma redoma. Embaçado e testemunha de tantas outras paixões. Lá fora, pequenas guerras são travadas por exércitos solitários e sem generais. O escuro das horas vai derrubando a temperatura. Lembro do teu hálito esfriando enquanto o orgasmo dissipava pelo tampo da tua cabeça.

Sento na cadeira e penso na raridade de dias assim. A gente extingue a vida muito antes de morrer. E vive com medo. E morre assustado. O cigarro no cinzeiro queima feito incenso. Lambo as paredes. Cheiro o carpete. Me esfrego no azulejo do banheiro. Aquele quarto, agora, está dentro de mim. E, consequentemente, dentro de você.

Me olho a contragosto no espelho. Me odeio, não sei o motivo de você gostar tanto de mim. Nem pergunto. Tenho sorte. As olheiras, os cabelos embranquecendo, tudo é fora do padrão. Dentro então é bem mais bagunçado.

Te descubro devagar pra não te acordar. O escorregar do lençol na pele vai deixando um rastro de arrepios. Até os pelos invisíveis da bunda estão de pé. Você resmunga sem acordar. Tá frio, muito frio. Ok, vou te deixar em paz. Dorme, dorme. E sonha.


Hoje foi tudo um sonho. Sonha junto comigo.

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