11.9.17

É o fim

Não sabia se era o começo do fim ou o meio do fim, mas tinha certeza que era a trilha pro fim. Desde muito cedo, foi entregue aos próprios demônios. O abandono era companhia constante. A solidão nunca o deixou sozinho.

Deitado no colchão duro, lágrimas sem choro regaram o lençol morno. Lembrou daquela viagem, praquela ilha, quando ela imitou a moça caolha pintada no quadro. Naquele instante, a brisa acalentadora do eterno inflou seu peito. Lembrou também quando ela, anos depois, disse que nada é pra sempre. Nostalgia é lâmina feita de ternura e maldade.

Encheu o copo trincado com qualquer veneno e sentiu o bafo frio e gosmento da desesperança sussurrar pensamentos tristes que faziam sentido demais. Sentiu culpa. Sentiu dó. Sentiu o abraço sufocante, onipresente do vazio.

Na cozinha sem vida, tentou lembrar de cada tropeço que o levou até aquela situação. Num desmoronar constante, invisível e quase ruidoso, percebeu o despencar de tudo o que eles tinham vivido. E, ali, tudo parecia muito pouco.

A truculência da distância, os carinhos ocos, o amor burocrático. Respirar ardia. A boca seca do choro engolido, entalado na garganta. Abriu a gaveta dos talheres e se maravilhou com os tamanhos das facas. Correu os dedos por elas até romper o sangue. Com o gosto na língua, pensou no seu próprio fim. Mas até pra isso lhe faltava a coragem.

Ela chegou. Ele deu um abraço mole. Sentiu cheiro de fumaça no cabelo dela. Resolveram pedir um delivery para a janta. E dormiu torto e pequeno no sofá.


25.5.17

Raimundo

Almoço sozinho todos os dias na praça de alimentação desse shopping suburbano, num bairro rasgado ao meio, nessa cidade que é outra.

Um casal novo se promete tesão e eterno. A comida sem gosto escorre rápida pela garganta. A mulher tem perfume de cigarro e olhos tranquilos.

Mastigo com óculos escuros que é o único jeito de ser diferente e mais estranho. O conforto da transparência às vezes me cansa.

Chego em casa com sapatos gastos, roupas folgadas e testa molhada. Desapareço sob olhos desatentos e carinhosos. Eu nem moro mais nesse corpo. Não tenho espelho nessa família que nunca foi minha. Não encontro encaixe nesse mundo que não tem meu formato.

Mas penso em você. Escrevo, apago. Escrevo, apago. Escrevo. Apago.

Me espera na cama com mil amantes, foge de mim com a alma em chamas. Hoje a gente queima toda nossa história e a única lembrança é esse cheiro de fumaça.

O ouvido apita baixo, quase imperceptível. A cabeça pressiona e fico zonzo. Sinto no pescoço o nó apertado dessa corda que eu nunca estiquei.


Bato o portão e atravesso devagar a avenida, de olhos fechados. Mas sei que vou morrer velho, curvado e vazio.

6.4.17

De joelhos

Deitado nu na cama, deixo teu nome obcecar a razão. No quarto escuro das pálpebras, só existe você. Globos cegos reviram pela cavidade ocular, perseguindo tua sombra por mil labirintos. Constelações de imagens da tua bunda, da tua boca, dos teus seios, cintilam na tampa do crânio, nesse céu de você que é meu. Meu.

O eco molhado do teu prazer reverbera na orelha feito mantra gemido. Sussurro no teu sexo e um grito mudo tenta rasgar tua barriga. Elogios úmidos transbordam por lábios sorridentes. Palavras desesperadas e bonitas tentam nos algemar ao eterno. E o teu nome. O teu nome. O teu nome.

Da tua pele, lembro do gosto doce e do arrepio. Da língua, o hálito quente. Desço as unhas pelo peito até arrancar sangue, levo a gota à boca. Esqueceu daquele dia que você despencou do meu rosto? Que eu caí de joelhos e mergulhei em você? No subterrâneo das vontades, eu era devoto único e fiel da tua capela.

O ar pesado do quarto gruda em mim, o corpo que levitava agora afunda na cama. Sinto falta dos espasmos, da respiração quase débil e do cheiro do eterno. Curvado frente ao vazio sem fim, vejo a gênese do nosso vício. E como tudo se expandiu até nos engolir. Hoje a gente só existe nessas lembranças pálidas.


Rio que passou por mim, deito no leito seco da tua terra. Deserto feito de areia e desejo, o oásis é parar de pensar.

6.3.17

Represado

A represa é próxima demais, ela evapora demais. Com teares alados, produz um lençol flutuante feito de névoa. O tecido felpudo de trama impenetrável é estendido sobre a cidade. Logo, um véu branco vai cobrindo os morros, as favelas, os prédios, cegando minha janela.

Corro pra seteira do banheiro, escorregando as meias lisas no chão encerado, a esperança é que o bloco dos fundos ainda esteja lá. Mas se uma estrutura de quase 50 metros pode desaparecer assim, então tudo é muito frágil e temporário.

Uma corda invisível me esgana, a traqueia é empurrada na direção da nuca. Uma esfera densa ocupa toda a garganta. Levanto a cabeça em busca de algum ar, mas as narinas estão bloqueadas. Estralo o esterno como se os pulmões, comprimidos, precisassem de um tablado maior nesse show sem plateia.

Ajoelhado no azulejo gelado, estico o braço e confiro se a porta está trancada. Ninguém precisa ver aquilo. Soco o piso como se a cerâmica fosse a porteira do inferno. Grito sem som. A respiração acelera, a tontura se apressa. Levanto e molho o rosto. O atordoamento dá um conforto caótico. Aproximo o rosto do espelho, expiro e testo se ainda vivo.

Aquela vez, subindo a serra, foi pior. A família toda no carro e eu tendo que parar a viagem. Eu tinha falhado na frente de todos os eles. Eu tinha quebrado, pela primeira vez, embaixo de seus narizes. Eles não tinham as peças e, também, pouco sabiam da minha mecânica.

Desde então, o ar me falta com uma incômoda regularidade. Ao mesmo tempo, me sinto maior e especial por passar por algo tão grandioso e assustador. Isso dura poucos instantes, até a crise passar e eu ansiar, contra minha vontade, pela próxima. Então me sinto vazio e pequeno.

Sento no chão entre a privada e o armário, eu ainda sou acanhado, eu ainda encaixo ali, aquele espaço estreito é de um aconchego atroz. Aos poucos, sinto o coração desacelerar e a respiração volta a caber no peito.


Tiro a gaveta do armário. Embaixo dela, 3 revistas de mulher pelada. Pego uma e deixo sobre a pia, como se tivesse esquecido ali. Meus pais me perguntam o motivo de não ter namoradas. Perguntam pros meus irmãos se sou gay. A respiração volta a falhar. O coração pulsa a esmo.

5.12.16

Legado nenhum

O mosquito agoniza estrebuchando no assoalho do trem, que imita granito de um azul inexistente na natureza. Tem um saco médio de ração na mochila e a lombar apita intermitente. Não é ritmada o suficiente pra fazer esquecer da dor ou, pelo menos, acostumar com ela.

Do lado de fora da estação, um enxame de ciclistas noturnos. No breu, parecem grandes vagalumes azuis ainda não catalogados pela ciência. Os carros passam zunindo, inseticidas feitos de lata e pressa.

É um dezembro atípico: noites frias e dias garoentos, tingindo com melancolia o mês das festividades. Uma ardência incômoda rasteja debaixo da minha pele.

Na rua de casa, o vizinho canta desafinado e alto. O coral de risadas parece alheio a esse massacre musical. Invejo a ebriedade deles. Entro em casa tropeçando, arranco os sapatos, bebo vinho direto do gargalo de uma garrafa velha e dissolvo no sofá.

Não faz nem uma semana do acidente e já tem sangue nas nossas bocas e tesão nas nossas partes.


Deveríamos ser um Bartleby ainda mais empedernido. De preferência, já no embrião. O desejo não é a invisibilidade, é não existir, completamente.

24.7.16

Chove querosene

A gente vive, mora e morre nessa cidade. A beleza dela só se revela para alguns. Demanda reparo, não é óbvia. Exige de você um cuidado e carinho que muitas vezes não é recíproco. É lugar que se devora e se cospe, uma engrenagem sem lubrificação que nunca para de rodar.

O avião passa engolindo o silêncio e regando querosene nas plantas secas. A janela emoldura um céu ensanduichado de cinza, rosa quase roxo e que só vira azul de verdade nas estratosferas. A claustrofobia asfixiante de um teto infinito.

Você dorme roncando baixinho. Levanto o copo com veneno translúcido cor de sangue e te admiro através de pequenas ondas alcoólicas. Nada é reto no teu corpo. Teu pensamento faz curva. Teu olhar abraça esmagando.

Duas criaturas encharcadas de fantasias derretidas. A cama é palco sem plateia, uma peça nunca ensaiada e sempre reprisada. A gente adivinha o gozo do outro, jogo mental que escorrega pros sexos. Mãos dadas, tesões entrelaçados feito dedos.

Na contramão do bom senso, carros atropelam a tranquilidade do lusco-fusco. Teu sono fica sobressaltado. Dorme sossegada, que a gente ainda tem a noite toda pra se jantar. Eu queria viver dentro de você. Sonho acordado enquanto visto a cueca.

O vidro na parede é quase uma redoma. Embaçado e testemunha de tantas outras paixões. Lá fora, pequenas guerras são travadas por exércitos solitários e sem generais. O escuro das horas vai derrubando a temperatura. Lembro do teu hálito esfriando enquanto o orgasmo dissipava pelo tampo da tua cabeça.

Sento na cadeira e penso na raridade de dias assim. A gente extingue a vida muito antes de morrer. E vive com medo. E morre assustado. O cigarro no cinzeiro queima feito incenso. Lambo as paredes. Cheiro o carpete. Me esfrego no azulejo do banheiro. Aquele quarto, agora, está dentro de mim. E, consequentemente, dentro de você.

Me olho a contragosto no espelho. Me odeio, não sei o motivo de você gostar tanto de mim. Nem pergunto. Tenho sorte. As olheiras, os cabelos embranquecendo, tudo é fora do padrão. Dentro então é bem mais bagunçado.

Te descubro devagar pra não te acordar. O escorregar do lençol na pele vai deixando um rastro de arrepios. Até os pelos invisíveis da bunda estão de pé. Você resmunga sem acordar. Tá frio, muito frio. Ok, vou te deixar em paz. Dorme, dorme. E sonha.


Hoje foi tudo um sonho. Sonha junto comigo.

8.2.16

Art déco

O sapo sorridente pintado na madeira segura o aviso “aqui vive uma família feliz”. A grama alta do jardim esconde quase todo o bichinho. Penso no quanto as pessoas que ali moram sofreram e sofrem. Imagino as mentiras, as traições, os berros e a companhia corrosiva nas noites solitárias. Porta-retratos duma vida sonhada e nunca vivida. Uma tristeza me invade e respirar arde.

Carro que atropela a poça e banha com sujeira quem só quer chegar em casa. A caminhonete estacionada na ciclovia, pisca-alerta da absolvição ligado. A culpa acompanha a gente nos agarrando pelas canelas.

Ela chora em silêncio no vagão vazio. Engole lágrima junto com soluço. O trem desacelera e sinto a alma puxando o freio de mão. Agora, o fedor do rio é a segunda coisa que mais me incomoda.

O paradoxo da empatia é que ela pode gerar ainda mais solidão. Outra ironia duma vida que desconhece a sutileza.

Neon cintilando na frente do puteiro. Das três palmeiras, apenas as folhas de uma estão acesas. O corredor tem cheiro de sexo, couro e impotência. Eu nunca sou forte o suficiente para sobreviver até amanhã.

Quando o cigarro arde nas narinas, me amaldiçoo e parabenizo por ter aprendido a tragar. O papel queima laranja, gosto da fumaça espessa e branca que sai da boca, da tontura da dose de nicotina e da confusão mental que sinto quando vejo surgir o horizonte macio e molhado que é teu sorriso. Silêncio mais amargo que alcatrão. Entro na loja de suvenir que é teu peito e saio sem beijo ou chaveiro que seja.

Gosto dos teus cantos arredondados e sem arestas. Dos frisos. Das cores que nem devem existir mais. Virei alguém que eu detestaria? Me sinto à deriva das tuas costas. A luz desse farol é vermelha, fraca e resignada.

As pessoas que não se arrependem de nada, como elas vivem? Lamento da hora que acordo até a fiel insônia. Eu gostaria dum lugar pra chamar de casa, ter você ao lado, rir jogando a cabeça pra trás, um cachorro pra exibir para as pessoas. Mas um passo de cada vez: não ficar ébrio de novo hoje à noite já estaria ótimo. Brindo sozinho e sem taça.

Um penhasco de ressentimento é escavado entre nós. Lado a lado e separados. Meço minhas eras geológicas pelos cataclismos das minhas cagadas. Do que adiantaram esses binóculos se nunca te enxerguei?

- Tá tudo bem? Tá tudo bem com você?


Viro o cartão postal e “greetings from Miami”. Imagino você comendo num restaurante cubano, dançando salsa e sendo feliz como nunca te fiz. Despejo rum, coca-cola e uma rodela de limão no copo.