8.2.16

Art déco

O sapo sorridente pintado na madeira segura o aviso “aqui vive uma família feliz”. A grama alta do jardim esconde quase todo o bichinho. Penso no quanto as pessoas que ali moram sofreram e sofrem. Imagino as mentiras, as traições, os berros e a companhia corrosiva nas noites solitárias. Porta-retratos duma vida sonhada e nunca vivida. Uma tristeza me invade e respirar arde.

Carro que atropela a poça e banha com sujeira quem só quer chegar em casa. A caminhonete estacionada na ciclovia, pisca-alerta da absolvição ligado. A culpa acompanha a gente nos agarrando pelas canelas.

Ela chora em silêncio no vagão vazio. Engole lágrima junto com soluço. O trem desacelera e sinto a alma puxando o freio de mão. Agora, o fedor do rio é a segunda coisa que mais me incomoda.

O paradoxo da empatia é que ela pode gerar ainda mais solidão. Outra ironia duma vida que desconhece a sutileza.

Neon cintilando na frente do puteiro. Das três palmeiras, apenas as folhas de uma estão acesas. O corredor tem cheiro de sexo, couro e impotência. Eu nunca sou forte o suficiente para sobreviver até amanhã.

Quando o cigarro arde nas narinas, me amaldiçoo e parabenizo por ter aprendido a tragar. O papel queima laranja, gosto da fumaça espessa e branca que sai da boca, da tontura da dose de nicotina e da confusão mental que sinto quando vejo surgir o horizonte macio e molhado que é teu sorriso. Silêncio mais amargo que alcatrão. Entro na loja de suvenir que é teu peito e saio sem beijo ou chaveiro que seja.

Gosto dos teus cantos arredondados e sem arestas. Dos frisos. Das cores que nem devem existir mais. Virei alguém que eu detestaria? Me sinto à deriva das tuas costas. A luz desse farol é vermelha, fraca e resignada.

As pessoas que não se arrependem de nada, como elas vivem? Lamento da hora que acordo até a fiel insônia. Eu gostaria dum lugar pra chamar de casa, ter você ao lado, rir jogando a cabeça pra trás, um cachorro pra exibir para as pessoas. Mas um passo de cada vez: não ficar ébrio de novo hoje à noite já estaria ótimo. Brindo sozinho e sem taça.

Um penhasco de ressentimento é escavado entre nós. Lado a lado e separados. Meço minhas eras geológicas pelos cataclismos das minhas cagadas. Do que adiantaram esses binóculos se nunca te enxerguei?

- Tá tudo bem? Tá tudo bem com você?


Viro o cartão postal e “greetings from Miami”. Imagino você comendo num restaurante cubano, dançando salsa e sendo feliz como nunca te fiz. Despejo rum, coca-cola e uma rodela de limão no copo.

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