4.9.15

Sol, praia & cicatriz

Afundo a cabeça no mar e conto meu tempo pelo fuso horário das ondas que deslizam sobre. A temperatura despenca pelos segundos. Um torno invisível comprime meu peito. Cuspo o ar, admiro as bolhas se dissolverem no teto líquido. Tomo impulso e deixo o oceano me parir.

Finco os pés na areia fofa, que desmorona. Fico imóvel. A pelve banhada, o vento me seca, o Sol me tosta. Abro os olhos gostando desse soro salgado que arde e avermelha. Enxergo por essa cortina esburacada de cabelo colada na testa.

Minha família se derrete na areia. 8 adultos ruidosos, bêbados e felizes. Meu pai cai da cadeira, os outros riem. Eu rio. Tampo os ouvidos sem usar os dedos. O lugar é barulhento, o verão zumbindo alto.

Me sinto vazio e completo.

Imagino o mar me engolindo aos poucos. Devorando meus calcanhares, me aleijando das pernas, regurgitando meu sexo, cuspindo meu coração, mastigando meu cérebro.

De volta pra casa, tudo é fome, afeto e bronzeado. Escalo o beliche do quarto pra ler um gibi. Sozinho. No silêncio. O murmúrio incessante escorre por debaixo da porta, como um ácido quente e fedorento. E me pergunto se nunca mais naquela vida eu teria um segundo de paz.

Começa a chover e o fuzuê é pra recolher a água que jorra das telhas, despeja do céu. Se ingerida, a primeira chuva de janeiro faz as pessoas falarem mais. Como se alguém naquele lugar precisasse disso.

O tempo seca e saio pra rua. Fascinado pelo arco-íris em volta do Sol, me pergunto se aquele halo não é um veículo alienígena que me sequestraria dali prum lugar melhor.

Volto frustrado por ainda estar no planeta e atravesso mudo uma muralha de carinho excessivo e perguntas preocupadas. Uma infelicidade sem sentido pulsa dentro de mim como um segundo coração, só que mais forte. Vou pros fundos da casa. Do alto de uma escadinha, me penduro, segurando o corrimão com apenas uma mão. Com o corpo projetado, vislumbro meu primeiro fim. O bafo quente da morte parece confortável e possível. Meu lábio inferior treme enquanto os dedos suados escorregam pelo ferro morno.

- Gê, vem, vem!, tem bolinho de chuva – alguém grita muito alto, de longe.

Saio desse transe frio e queimo a boca com o doce mais doce e gostoso que já comi.


Todos esses verões na Praia Grande me formaram e deformaram. Mergulhei no meu universo interno sem saber nadar.

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