6.3.17

Represado

A represa é próxima demais, ela evapora demais. Com teares alados, produz um lençol flutuante feito de névoa. O tecido felpudo de trama impenetrável é estendido sobre a cidade. Logo, um véu branco vai cobrindo os morros, as favelas, os prédios, cegando minha janela.

Corro pra seteira do banheiro, escorregando as meias lisas no chão encerado, a esperança é que o bloco dos fundos ainda esteja lá. Mas se uma estrutura de quase 50 metros pode desaparecer assim, então tudo é muito frágil e temporário.

Uma corda invisível me esgana, a traqueia é empurrada na direção da nuca. Uma esfera densa ocupa toda a garganta. Levanto a cabeça em busca de algum ar, mas as narinas estão bloqueadas. Estralo o esterno como se os pulmões, comprimidos, precisassem de um tablado maior nesse show sem plateia.

Ajoelhado no azulejo gelado, estico o braço e confiro se a porta está trancada. Ninguém precisa ver aquilo. Soco o piso como se a cerâmica fosse a porteira do inferno. Grito sem som. A respiração acelera, a tontura se apressa. Levanto e molho o rosto. O atordoamento dá um conforto caótico. Aproximo o rosto do espelho, expiro e testo se ainda vivo.

Aquela vez, subindo a serra, foi pior. A família toda no carro e eu tendo que parar a viagem. Eu tinha falhado na frente de todos os eles. Eu tinha quebrado, pela primeira vez, embaixo de seus narizes. Eles não tinham as peças e, também, pouco sabiam da minha mecânica.

Desde então, o ar me falta com uma incômoda regularidade. Ao mesmo tempo, me sinto maior e especial por passar por algo tão grandioso e assustador. Isso dura poucos instantes, até a crise passar e eu ansiar, contra minha vontade, pela próxima. Então me sinto vazio e pequeno.

Sento no chão entre a privada e o armário, eu ainda sou acanhado, eu ainda encaixo ali, aquele espaço estreito é de um aconchego atroz. Aos poucos, sinto o coração desacelerar e a respiração volta a caber no peito.


Tiro a gaveta do armário. Embaixo dela, 3 revistas de mulher pelada. Pego uma e deixo sobre a pia, como se tivesse esquecido ali. Meus pais me perguntam o motivo de não ter namoradas. Perguntam pros meus irmãos se sou gay. A respiração volta a falhar. O coração pulsa a esmo.

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