29.3.06

Dios Malos

É uma substância que sobra ou falta na minha cabeça. Eu nunca sei. Todos os meus médicos já me explicaram. Mas bem nessa hora a substância que sobra (ou falta) insiste em sobrar (ou faltar). E eu perco o controle sobre o meu cérebro.

Isso é o que acontece agora. Foi só quando eu senti o gosto do metal com sangue é que percebi que fiz merda. O problema é: o que eu vejo é real ou alucinação?

O que eu vejo são uns 20 corpos estendidos na minha frente. E muito, muito sangue. E olha que eu já vi e produzi muito sangue nessa vida. Mas isso não pode ser real. Eu torço pra que não seja real. Eu torço pra que, se for real, não tenha sido eu o causador.

Fato é: eu tenho uma faca ensangüentada na minha boca, uma mão vermelha e a outra segura coisas que eu prefiro não descobrir.

Eu puxo na memória até onde me lembro. E lembro: me sentia entediado. Depois ouvi Ela me mandando fazer coisas que eu não queria fazer. Me senti bem. E, então, não lembro de mais nada.

Por alguns instantes, eu não fui eu.

Por alguns instantes, eu fiz coisas que não quis fazer.

Por alguns instantes – sempre mais curtos do que eu gostaria, me senti bem.

O problema de ser esquizofrênico é esse: você sempre tem medo de pirar. Sua vida é isso: um constante medo. Porque você nunca sabe se vai ser boa a piração. E geralmente não é. Muita gente deve achar isso absurdo: eles tomam LSD pra ter alucinações. E eu fujo delas. É a bad trip de ter uma bad trip. Essa é minha vida. Sem dó. Não tenha dó de um esquizofrênico. Eu peço isso.

Tem alguém escondido atrás da maca. É um enfermeiro chorando. Ele é maior do que eu. Mas é óbvio que quem tá assustado aqui é ele. Tenta fugir de mim, mas é inútil. Ok. Agora me diga tudo o que você viu. Ele pede pra eu não matá-lo. Prometo. Só que eu deveria avisar que quem mata é Ela, a voz. Mas beleza...

Ele começa a falar e eu começo a ver.

Sinto minha mente implodindo num estalo abafado. Sinto meu peito vazio e o coração pulsando no meio da garganta. E rio. Porque é isso ou o desespero. Então rio. Ouço um enfermeiro dizendo que alguém tinha roubado todo o estoque de psicotrópico da clínica. Só sei que não fui eu. Só sei que faz algum tempo que eu não tomo o remédio.

Uma faca parece se materializar na minha mão. E eu começo a saltitar ao som de uma música que só toca na minha cabeça. Uma jukebox exclusivíssima.

E a minha mão começa a ir de um lado pra outro fora de controle. E eu mato um ali, mato outro aqui. E sangue, sangue, sangue. E eu rio, rio, rio. Eu me sinto bem. As pessoas que morrem parecem não estar gostando. Mas é meu momento. É meu grand finale pra um cérebro bastardo. Uma cabeça que eu não reconheço como minha. É melhor terminar com toda essa bosta de vida logo.

E eu vou nessa direção. Pulando do penhasco e levando comigo pessoas que até segundos atrás me consideravam amigo. É escalpo. É sangue. É entranha. É vida se esvaindo e a minha num anti-clímax fudido. Quase no cume. Quase no começo do fim.

Entre um assassinato e outro eu me pego cantando. Também, essa música é muito boa. Essas pessoas têm sorte de morrer me ouvindo cantar isso.

Eu sou sangue frio. Ela me faz ficar assim. Sabe, Ela? Meu Deus, como me sinto bem. Vendo eles correrem. E sabendo que eu engoli as chaves de todas as portas e que as janelas são de vidro temperado.

Eles são meus. Suas vidas são minhas. Não quero saber de suas almas. Quero banhar a minha no sangue deles. É um sacrifício que eles vão fazer pra um esquizofrênico megalomaníaco. Foda que eles não têm opção. Não é fazer ou não o sacrifício. É fazer ou fazer.

Eu paro. Eu perco o fôlego. Eu olho ao redor. Não tem mais ninguém. Parece que acabou. É isso. É o fim. Só a música, que se repete ad aeternum, não pára.

É o fim. Aqui vou eu. E cravo a faca no meio da minha cabeça. É quando sinto meu próprio sangue na boca que penso: de tudo isso, o que é real?


PS: a inspiração pra esse texto veio de uma música chamada "Feels Good Being Somebody Else" da banda Dios Malos.

2 Comments:

At 11:29 PM, Anonymous Anônimo said...

Com somente 3 textos seu "padrão" já veio à tona. Dá até pra dizer o que você tem lido ultimamente.

Crie verdadeiramente, evolua.

Boa sorte. Abraços.

 
At 4:26 PM, Anonymous Anônimo said...

Ae Mr. Raso 2. Cadê mais textos? Desse jeito vou ser obrigado a ler um livro.

 

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